O que é a transição de setembro na Reforma Tributaria

A Reforma Tributaria brasileira, aprovada pela Emenda Constitucional 132/2023 e regulamentada pela Lei Complementar 214/2025, estabelece um período de transição gradual para a substituição dos tributos atuais pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Esse processo não acontece de uma só vez: e faseado ao longo de vários anos, com marcos específicos que empresas e sistemas fiscais precisam cumprir.

Setembro de 2026 e um desses marcos. Nesse período, as empresas precisam ter seus sistemas de emissão de notas fiscais e ERP adaptados para suportar os novos campos e códigos exigidos pelo modelo dual do IVA brasileiro. Quem não estiver com os sistemas prontos pode enfrentar rejeição de documentos fiscais e interrupção das operações.

Uma pesquisa recente da Omie aponta que 48% das PMEs ainda não tomou nenhuma ação concreta em direção a essa adaptação. Para um universo de milhões de empresas ativas no Brasil, isso representa um risco sistémico considerável para o próximo trimestre.

⚖️
Base Legal & Legislação

Emenda Constitucional 132/2023 criou o arcabouço da Reforma Tributaria. A Lei Complementar 214/2025 regulamentou o IBS e a CBS, incluindo o cronograma de transição e as obrigações acessórias para empresas no período de adaptação.

Como funciona a transição

A transição da Reforma Tributaria não e uma virada de chave imediata. O modelo previsto e de coexistência progressiva: durante os primeiros anos (2026-2029), o IBS e a CBS coexistem com PIS, COFINS, ICMS e ISS em aliquotas muito reduzidas, apenas para testar os sistemas. A extinção completa dos tributos antigos só ocorre em 2033.

Para setembro de 2026, o foco e a adequação técnica dos sistemas. As notas fiscais eletrónicas (NF-e, NFS-e e CT-e) precisam suportar novos campos relacionados ao IBS e CBS, mesmo que as aliquotas ainda sejam simbólicas. O Comité Gestor do IBS já publicou as especificações técnicas que os sistemas de gestão e os desenvolvedores de software de emissão fiscal precisam implementar.

Além da parte técnica, as empresas precisam entender o impacto contabil e fiscal da nova escrituração. O IBS e tributo de competência estadual e municipal, enquanto a CBS e federal. A lógica de credito e debito muda em relação ao modelo atual do ICMS e PIS/COFINS, exigindo treinamento das equipes.

Principais mudanças que as PMEs precisam conhecer

Para as pequenas e medias empresas, as mudanças mais impactantes da Reforma Tributaria são:

  • Unificação de aliquotas por NCM/NBS: cada produto ou serviço terá uma aliquota definida pelo Comité Gestor (IBS) e pela Receita Federal (CBS), eliminando a negociação individual de benefícios fiscais estaduais.
  • Credito automático: o modelo de credito no IBS/CBS e mais amplo que o atual do ICMS, permitindo credito sobre praticamente todos os insumos da cadeia produtiva.
  • Não cumulatividade plena: ao contrario do ICMS atual, não haverá limitação de credito por regime tributário do fornecedor em muitos casos.
  • Novos campos nas notas fiscais: a NF-e e a NFS-e nacionais já tem versões em desenvolvimento para incluir os campos do IBS/CBS.
  • Regime de Caixa para pequenas empresas: PMEs com faturamento abaixo de determinado limite poderão optar pelo recolhimento em regime de caixa, facilitando o fluxo de caixa.
📊
Aliquotas & Prazos Fiscais

Para 2026 e 2027, as aliquotas de teste do IBS são de 0,1% (estadual + municipal) e da CBS de 0,9%. A partir de 2029, iniciam as reduções progressivas do PIS/COFINS. A aliquota referência do IVA dual deve ficar entre 26% e 28% quando totalmente implantada.

Como se preparar: passo a passo prático

A preparação para a Reforma Tributaria não precisa ser um processo caotitico. Siga uma lógica estruturada e o processo fica gerenciavel mesmo para uma PME com equipe contabil enxuta.

Passo 1 - Mapeie seus sistemas atuais. Identifique qual software de emissão de nota fiscal e ERP a empresa utiliza. Verifique com o fornecedor se já existe previsão de atualização para suportar os novos campos do IBS/CBS. Se o fornecedor não tem roadmap claro, e momento de avaliar alternativas.

Passo 2 - Classifique seus produtos e serviços. O IBS/CBS utiliza NCM (para produtos) e NBS (para serviços) como base de tributação. Garanta que todo o seu catalogo esta corretamente classificado. Erros de NCM hoje vao gerar aliquotas erradas amanha.

Passo 3 - Treine a equipe fiscal. O departamento fiscal precisa entender a lógica de debito e credito do novo modelo antes que ele entre em vigor. Contadores e auxiliares fiscais devem participar de pelo menos um treinamento específico sobre IBS/CBS antes de setembro.

Passo 4 - Acompanhe as publicações do Comité Gestor. O Comité Gestor do IBS (órgão criado pela LC 214/2025) pública resoluções e instruções normativas sobre os detalhes da transição. Assine a newsletter do órgão ou delegue esse acompanhamento ao contador responsável.

💡
Dica Prática

Antes de contratar qualquer treinamento sobre Reforma Tributaria, verifique se sua associação comercial ou sindicato patronal oferece capacitação gratuita ou subsidiada. Muitas entidades já firmaram parcerias com consultorias tributarias para esse tipo de conteúdo.

Exemplo prático: empresa de serviços de TI se preparando

Imagine uma empresa de desenvolvimento de software com faturamento anual de R$ 2,4 milhões, optante pelo Lucro Presumido. Hoje ela recolhe PIS (0,65%), COFINS (3%) e ISS (2% a 5% conforme o município). Com a Reforma, esses tributos serão gradualmente substituídos pela CBS (federal) e pelo IBS (estadual + municipal).

Para essa empresa, o primeiro impacto prático em setembro de 2026 e que sua NFS-e precisa ter campos adicionais. O sistema de emissão de nota (por exemplo, uma prefeitura que usa sistema próprio) precisa ser atualizado pelo município. Se a prefeitura estiver atrasada, a empresa pode ficar sem conseguir emitir nota por alguns dias.

Empresa: TI Ltda (Lucro Presumido)
Faturamento mensal: R$ 200.000,00
Regime atual:
  PIS: 0,65% = R$ 1.300,00
  COFINS: 3,00% = R$ 6.000,00
  ISS: 3,00% = R$ 6.000,00
  Total: R$ 13.300,00/mes

Fase de teste 2026 (adicional):
  CBS: 0,9% = R$ 1.800,00
  IBS: 0,1% = R$ 200,00
  Total adicional (transitório): R$ 2.000,00/mes

Obs: os valores de CBS e IBS de teste são compensados
com redução proporcional de PIS/COFINS na mesma base.

Nesse cenário, a empresa precisa garantir que seu sistema ERP consiga calcular e escriturar corretamente esses dois valores adicionais, mesmo que pequenos, e que a nota fiscal emitida contenha os novos campos sem rejeição pela SEFAZ ou pela prefeitura.

Comparação: empresas que se prepararam x as que não se prepararam

A diferença entre PMEs que se anteciparam e as que ignoraram a Reforma Tributaria já e visível no mercado. As que se prepararam estão em vantagem competitiva em três frentes principais.

AspectoEmpresa preparadaEmpresa despreparada
Sistema fiscalERP atualizado com campos IBS/CBSRisco de rejeição de notas em setembro
EquipeTime treinado na nova lógica de creditoCurva de aprendizado em momento crítico
Planejamento tributárioCalculo do impacto na margem já feitoSurpresas no fluxo de caixa em 2027-2028
Relacionamento com clienteJá comunicou mudanças nos contratosConflitos contratuais sobre reajustes

Para as empresas que ainda não começaram, o dado preocupante e o prazo: setembro de 2026 esta a poucas semanas. Não da mais tempo para uma preparação profunda, mas ainda da para cobrir o mínimo necessário para não ter a operação interrompida.

Pontos positivos e limitações do novo modelo

A Reforma Tributaria tem méritos reais que precisam ser reconhecidos. O modelo de credito ampliado do IBS/CBS e mais justo do que o atual: empresas que compram de fornecedores do Simples Nacional hoje perdem credito de ICMS e PIS/COFINS. Com o novo modelo, essa distorção e reduzida.

A unificação de legislações também é um ganho real. Hoje, uma empresa que opera em vários estados precisa lidar com 27 legislações de ICMS diferentes, com aliquotas e benefícios distintos. O IBS tem aliquota única nacional por produto (com eventuais reduções setoriais definidas pelo Comité Gestor).

Por outro lado, o período de transição e longo e complexo. Até 2033, as empresas precisam manter dois regimes em paralelo, o que aumenta temporariamente o custo de conformidade. Além disso, os sistemas de emissão de nota fiscal e de ERP dependem de atualizações dos fornecedores de software, que nem sempre são rápidas ou isentas de custos.

⚠️
Atenção Fiscal

O Simples Nacional tem regras próprias na transição da Reforma Tributaria. Empresas optantes pelo Simples continuarão recolhendo pelo DAS, com ajustes graduais nas aliquotas e na forma de credito concedido aos compradores. Fique atento as resoluções do CGSN (Comité Gestor do Simples Nacional) sobre o tema.

Casos de uso reais: quem precisa agir agora

Comercio varejista com sistema próprio de PDV: empresas que usam sistema de ponto de venda próprio ou desenvolvido por fornecedor pequeno tem risco maior de atraso nas atualizações. O recomendado e cobrar o fornecedor por escrito sobre o roadmap de atualização e definir um plano B se as datas não forem cumpridas.

Prestadores de serviço com nota emitida pela prefeitura: NFS-e nacional ainda não e obrigatória em todos os municípios. Municípios menores podem demorar mais para atualizar seus portais. Identifique se o seu município já tem data para migrar para a NFS-e nacional ou para atualizar os campos da nota atual.

Industrias e distribuidores com operações interestaduais: o impacto do IBS no ICMS interestadual e significativo. A substituição tributaria e o diferencial de aliquota (DIFAL) passam por revisão completa no novo modelo. Essas empresas precisam de consultoria tributaria especializada já.

Empresas com contratos de longo prazo: construtoras, prestadores de serviços continuados e fornecedores do governo com contratos plurianuais precisam revisar as clausulas de reajuste. A mudança tributaria pode alterar a margem se o contrato não tiver previsão de repasse das variações fiscais.

Dicas e boas práticas para a transição

💡
Dica Prática

Crie um grupo de trabalho interno específico para a Reforma Tributaria com representantes de financeiro, fiscal, TI e jurídico. Uma reunião mensal de 1 hora para acompanhar as publicações do Comité Gestor já e suficiente para PMEs não serem pegas de surpresa.

💡
Dica Prática

Use o simulador do IBS/CBS disponibilizado pelo Ministério da Fazenda para estimar o impacto na sua carga tributaria. O resultado pode ser positivo ou negativo dependendo do setor e da cadeia de créditos da empresa - e melhor saber agora do que ser surpreendido em 2027.

🔴
Risco de Multa

Erros de classificação fiscal (NCM/NBS) no novo modelo podem gerar autuações com multa de 75% sobre o tributo não recolhido corretamente, além de juros SELIC. Invista na classificação correta do seu catalogo de produtos e serviços antes que o IBS entre em vigor com aliquotas plenas.

Vale a pena se preparar agora?

Sim, sem duvida. Para as PMEs que ainda não tomaram nenhuma ação, o recado e direto: setembro de 2026 não espera. A transição não vai ser cancelada, e as empresas que chegarem despreparadas vao enfrentar interrupção operacional, custo de adaptação em emergência e potenciais multas por inconsistências na escrituração.

O custo de se preparar agora e muito menor do que o custo de correr atrás depois. Um treinamento da equipe fiscal, uma conversa com o fornecedor do ERP e uma revisão da classificação dos produtos e serviços já cobrem boa parte do que é necessário para setembro. Não e preciso contratar uma grande consultoria tributaria - para a maioria das PMEs, o próprio contador responsável já tem condições de conduzir essa preparação com suporte adequado.

O próximo passo prático: ligue para o seu contador ainda esta semana e pergunte especificamente: 'O que precisamos fazer antes de setembro para a Reforma Tributaria?' Se a resposta for vaga ou incerta, e hora de buscar capacitação ou apoio especializado. Não deixe para a última hora.